ficção, erótica, literatura

Triangulação

A mensagem era tímida, e eu sabia que não teria condições de minha amiga dizê-la em voz alta em um de nossos cafés. Era crassa de um jeito que os lábios pintados de um degradê rosado de uma boneca nunca conseguiriam dizer sem gaguejar.

amiga, eu e meu namorado estivemos pensando, e você é tão experiente!

talvez você pudesse ensinar algumas coisas para mim (e para ele).

tipo… ai!!! essas coisas que você sempre fala sabe?

tipo língua, dedada, preliminares

sei que você não gosta de homens e, se não quiser, está tudo bem! você não precisa tocar nele.

Ela, como sempre, era totalmente ignorante de minha paixão por ela desde a época da graduação. Pior que isto — todas as vezes que eu me sentia preparada para dar em cima dela, ela aparecia com outro homem. Era de desanimar até a lésbica mais empolgada.

Essa corrente de homens que iam e vinham da vida dela começou a superaquecer meu cérebro de ideias. No fundo, no fundo, eu queria provar pra ela que era uma péssima ideia não explorar sua bissexualidade para o lado feminino. Por outro lado, todas as mulheres com quem ela havia ficado haviam causado péssimas experiências. Sentia que só eu poderia fazer jus, poderia entendê-la.

Até porque, eu sabia de algo que as outras pessoas não sabiam captar. Suas referências pop todas remetiam a histórias, mangás eróticos e fetichistas. Nós compartilhávamos este gosto em comum. Na verdade, ela tinha a mesma timidez sempre que falava do assunto, e eu que corajosamente chamava os fetiches pelo que eram em voz alta. Eu sabia que ela secretamente desejava violência. Mas todos os homens que ela atraía eram o tipo de homem submisso e manipulador que sente tesão na namorada que age como uma mãe.

Isso fez com que a mensagem parecesse menos um mistério e mais uma confirmação de que a vida sexual dela era uma vida dolorosamente heterossexual. Nada demais, nada de menos. Perfeitamente heterossexual.

Respondi, com o usual tom de nossa amizade, provocando-a.

com muito prazer, esse é um dos meus sonhos! 😉

——

Era difícil encontrar uma forma de marcar um dia com ela. Nós nos víamos no almoço, pois ela trabalhava em um prédio próximo do meu. Eu tentava introduzir conversas inofensivas com ela para, na segunda metade, tentar abordar a mensagem que ela havia me mandado. Às vezes parecia que ela pressentia o assunto. Colocava os garfos horizontalmente no prato e dizia “Acho que já vou indo.”

Queria dizer que eu estava começando a broxar com a ideia no geral, que esse vai e vem estava me cansando. Mas percebi, de alguma forma, que não conseguia me segurar com o desejo de levá-la ao limite. Limite do que? Ainda me era indefinido. Mas sabia que precisava fazer com que ela tomasse a decisão de abordar o assunto.

Nossa amiga em comum, Carla, nos chamou para uma janta com os antigos colegas da faculdade de Artes. Queria discutir sobre os diferentes rumos que essa jornada artística havia levado – designers, marketing, ilustradores, acadêmicos, tatuadores e fotógrafos. Era incrível como nenhum de nós conquistou espaço na arte, nas galerias e nos cinemas. Havíamos, sem sombra de dúvida, tomado nossos próprios rumos.

Poupo o leitor dos detalhes do jantar, pois consistiu em uma série de conversas fiadas de quem ainda sente amizade, mas reconhece que não há mais nada em comum unindo o grupo. Só eu e ela mantínhamos contato recorrente uma com a outra. O grupo já havia se dividido em vários subgrupos. Era uma tentativa frustrada de reconhecimento de pertencer a algo maior. 

Só sei que, com algumas taças de vinho a mais do que alguém pode acompanhar, reparei um furo na meia-calça dela. Estávamos em um sofá em um tom de off-white que destacava bem suas roupas pretas. Com uma taça de vinho em uma das mãos, ela assistia à bebida girar de tempos em tempos. Achava que ela não entendia nada de degustação de vinho, mas não conseguia deixar de reparar nos pequenos hábitos de bebida dela. Talvez fizesse muito tempo em que nós não tivéssemos nos visto fora desses intervalos de trabalho, em demandas mais sociais. Mas sabia que o namorado dela era entusiasta por todos os tipos de bebida, o que me causava um desconforto. 

A independência dela de mim me incomodava.

Enquanto meus olhos vagavam por seu corpo, já bêbada demais para me opor a meus maus hábitos, vi o tal furo em sua meia-calça. Apontei discretamente, e ela — com os olhos entreabertos de vinho e diversão — sorriu pra mim antes de me puxar pelo braço.

Ela fechou a porta do banheiro atrás de nós e começou a procurar mais furos na meia.

– Está vendo alguma coisa? — Ela disse, virando-se de costas.

Me abaixei, ciente de que conseguia ver a calcinha dela embaixo da minissaia.

– Nada, a princípio. Só o furo que eu te disse.

Ela abriu uma caixinha de maquiagem, misturando com a ponta do mindinho dois tons de preto e carne para simular a aparência da meia-calça. Ela passou no buraco, flexionando a perna para tentar cobrir todas as posições. Se abaixava deixando a minissaia subir, revelando a renda preta que mal acobertava os lábios maiores e os pelos ao redor. Só não era visível em um primeiro momento por estar obscurecido pela meia-calça.

– Olha, fiquei pensando na sua mensagem — eu disse, e ela se levantou. Virou seu corpo em minha direção. Estava próxima, mas isso não era novidade. Nós éramos próximas.

– Sim, entendo. Como eu disse, se te fizer desconfortável, não precisa. Sei que sua mensagem foi irônica. É que eu havia passado do limite nos drinks aquela noite e-

– Não, não. Eu quero. — disse, tirando um fio rebelde de seu cabelo. Ela sorria com aqueles olhos profundamente escuros e com o delineado suave que arredondava o formato em uma inocência premeditada. Penso que, neste momento, eu falhei em antever todas as coisas que aconteceriam entre nós.

– Posso falar com meu namorado, então. Podemos… — ela se aproximou, doce, e eu só conseguia reparar nos lábios de boneca e nos olhos entreabertos que olhavam em minha direção, escaneando meu rosto.

– Sim, podemos. — disse, meio sem ar. A antecipação ia se acumulando em meu estômago, um calor como curto-circuito que espalha chamas por tudo o que toca. 

Não sabia como continuar a conversa, mas sabia que ela estava esperando que minha chamada “experiência” contemplasse a tomada de decisões. Quem havia de decidir se era apropriado um beijo era eu.

Não queria admitir minha inocência, pois gostava de pensar em mim mesma como uma pessoa experiente, do jeito que ela havia me descrito. Mas naquele momento, desviei o olhar e me dirigi à porta.

——

Estava na minha cama, rolando entre cobertor e cobertor, quando meu celular vibrou. No primeiro bip, eu ignorei. No segundo, estranhei — meu celular havia poucos contatos como exceção ao modo silencioso.

O celular estava do outro lado da cama de casal. Fui até a cabeceira rolando, sentindo o toque suave dos lençóis e cobertores recém-lavados com um amaciante suave. Tinha uma sensação prazerosa dos entre-sonhos que ainda dominava meu corpo quando virei a tela do celular em minha direção. Enquanto a vista se acostumava com a luz, só conseguia ver a notificação com o nome dela.

Desbloqueei o celular e puxei o whatsapp, vendo a preview da notificação.

conversamos sobre você agora mesmo 🙂

Abri a conversa, observando a foto de visualização única que ela havia mandado. Esfreguei os olhos, respirei fundo e sentei na cama. Precisava sair do estado onírico pré-sonho em que estava.

Quando me senti preparada, abri a imagem. Ela usava um babydoll azul-bebê rendado que deixava visível o contorno dos mamilos e os pelos púbicos, e eu conseguia discernir bem ao fundo o corpo do namorado dela de shorts e sem camisa. Pela taça de vinho na mesinha de fundo, estavam no sofá assistindo a algum filme durante a madrugada. Respirei fundo, olhando para a imagem, indecisa sobre o que fazer. Tinha as visualizações de mensagem desativadas, o que fez com que eu me sentisse confortável em ficar sem responder.

Tentava pensar no que responder, mas já começava a sentir um calor subindo por todo o meu corpo. Não havia acordado ainda plenamente; estava num estado de inconsciência mental em que não sabia mais discernir o apropriado e o desapropriado. Só sabia que, inconscientemente, percebi que estava passando minhas mãos pelo meu próprio corpo.

Pensei por um instante que o sexto sentido dela era aguçadíssimo. De alguma forma, ela sabia que eu não teria levado ninguém para casa aquela sexta à noite.

Tinha que admitir que desde a primeira mensagem em que ela mencionava nós duas, a frequência de mulheres que haviam entrado no meu apartamento havia diminuído. Ia para festas e ninguém brilhava meus olhos do jeito de antes. Conseguia apreciar as mãos delicadas segurando Cosmopolitans, os lábios tragando cigarros, as bundas rebolando no meio da pista de dança, mas não conseguia me sentir impelida a levar nenhuma delas para a minha casa.

Pensava nisso enquanto uma mão segurava o celular e a outra subia pelo meu camisetão de pijama, encontrando a parte inferior de meus seios. Minhas unhas haviam crescido um pouco, e eu arrastava a ponta delas da parte inferior até o mamilo, contornando a aréola com a base do dedo. Passei pela lateral do meu corpo em direção aos seios, apertando, apalpando, mas ainda não era suficiente. 

Segurei com a ponta dos dedos o mamilo, girando em minha mão, sentindo um calor abafado exalar de meu sexo. Era aquela força vulcânica de quando uma fantasia te arrasta mais próximo de uma excitação do que a banalidade sexual do cotidiano. A calcinha que usava era apertada, e quando movia as pernas, conseguia sentir ela cavando nas laterais de meus quadris com uma tensão de aprisionamento. Enquanto uma mão fazia o caminho dos dois seios, alternando entre os mamilos, apalpando-os para, então, descer pela barriga, traçando círculos e voltas ao redor do corpo, a outra cuidava de manter a tela do celular brilhando e não perder a visualização única.

Já havia visto ela nua, mas apenas em situações estritamente platônicas, como um banho compartilhado no chuveiro da quadra de esportes, pois todas as duchas estavam lotadas; um trocar de roupa para se arrumar pra festa em que ela não se virava de costas para mim para colocar um sutiã e uma blusa. Não é que eu não me atraísse por ela no geral, mas este conhecimento do corpo dela não me excitava. Ainda ocupava o espaço de uma amiga querida.

Mas a foto — não havia contexto não-erótico para uma foto de babydoll.

Quando a ponta de meus dedos chegou na barra da calcinha, puxei-a para cima contra mim, sentindo o tecido escapar dos lábios maiores e adentrar a anatomia da vulva. O calor da entrada e o choque elétrico do ponto mais sensível faziam com que a contenção dolorosa se tornasse prazer. Com dificuldade, entrei com minha mão, pousando-a acima do sexo como se segurasse meus seios. Deixei o calor aquecer minha mão, sentindo a umidade na qual as carícias haviam preparado meu corpo. Só com a ponta, brincando com a pele da entrada, conseguia sentir que estava expandindo, me preparando. Arrastei pelas lábias menores, espalhando o suco, antes de carregar meus dedos melados pelo clitóris.

Não levou muito para que o estímulo, a imagem do azul-bebê contra sua pele, me encantasse. Usei o dedão para tapar o namorado dela na imagem, fingindo que não fazia ideia de que tinha outra pessoa na sala com ela. Quando recebi uma prévia de outra notificação dela, perguntando se eu estava dormindo, senti o calor elétrico subir e me aquecer, as pernas começando a ter leves espasmos antes do meu clímax.


Saí da imagem, respondendo a ela.

indo dormir, mas fico feliz de saber!

——

Era sábado, e tinha algumas coisas que eu precisava fazer, sendo uma delas visitar a única pet shop da cidade para pegar algum petisco para minha gata. Os miados incessantes e a recusa em comer comida seca estavam fazendo-a perder peso, e, apesar de não querer incentivar os maus hábitos da gata, meu desespero por ela não querer ração era mais forte do que qualquer outra coisa. 

Por um lado, as coisas estavam todas encaminhando para algo novelesco, o que fez com que eu não me surpreendesse ao encontrar o namorado dela na mesma pet shop, olhando pacotes de ração de vinte quilos para o border collie dele. Ele sorriu em minha direção, me chamando para perto dele com um braço estendido. 

Caminhei, vendo que ele ia me beijar. Nunca entendi por que homens beijam as bochechas das mulheres, sendo que não fazem o mesmo com os homens. Prontamente estendi meu braço, fazendo um toca-aqui ressoante.

Talvez meu desprezo pelas suas intenções tenha ficado visível, pois ele sacudiu a franja para frente dos olhos, claramente tímido.

— Quanto tempo, ein?

— Pois é. — respondi, apertando o sachê de um lado para o outro, movendo seu conteúdo como um brinquedo.

— E como as coisas estão com a sua gatinha? — ele disse, familiar com minha gata, pois já havia ido algumas vezes ao meu apartamento com ela para fazer jantares.

— Ótimas, ela nunca me dá problemas — menti, querendo ir embora o mais rápido possível. Ele passou seu braço pelo meu braço, descendo até o pulso, onde eu reagi, me distanciando. Para não o ofender, dei alguns tapinhas nas costas dele como se fôssemos dois caras.

— Gostaria de ir lá em casa hoje? Compramos um vinho importado novo, um hobby nosso. Acho que você ia gostar.

— Ah, sim. Claro, vou sim. — disse, já caminhando em direção ao caixa — Tchau, tchau!

——

Fazia um tempo que eu não visitava a casa dela, e a minha primeira impressão foi de como a decoração do lugar havia mudado desde que ela havia entrado nessa nova relação. 

Não era sobre a adição de um PS5, nem uma estante com carrinhos de Revel, mas sobre os tapetes quadriculados em tons vibrantes, mesinhas de centro transparentes, cortinas coloridas e paredes pintadas em um forte tom de azul escuro. Era como se toda a criatividade que restasse nela da época de faculdade só pudesse se expressar neste ambiente privado. O mais surpreendente, talvez, tenha sido a Adega Climatizada que ficava do lado do rack, lotada de garrafas de vinho.

— Amor! — Ela disse, se jogando em meus braços e plantando um beijo em minhas bochechas. Seu namorado, mais recatado do que pela manhã, apenas deu dois tapinhas nas minhas costas antes de me chamar para a sala — Entre, entre. Gostou da reforma? Vi você olhando. Todas as peças são de artistas daqui da cidade!

— Achei surpreendente, admito. — disse, sentando no sofá ao lado dela. Do lado oposto, seu namorado.

Ele tinha os braços ao redor dos ombros dela, e ela tinha as mãos na minha perna, posicionadas na minha coxa, sem se mover. Segurei a respiração enquanto a via ajeitando o cabelo com a mão livre, se esticando na mesinha para pegar a taça dela.

— Que péssimo da minha parte, tenho que te oferecer uma taça também, já volto! — Ela disse, retornando a taça à mesinha e se levantando do sofá. Eu conseguia ver o delineado dos músculos de sua perna revelados pelo short. Seu cropped de crochê revelava a parte inferior de seus seios, sem nenhum sutiã por baixo.

Eu e o namorado dela nos olhamos, em silêncio. Ele sorriu, levando a taça dele aos lábios e bebericando um quase gole. Nós dois abrimos a boca para falarmos ao mesmo tempo:

— Você…

— Sabe…

Ficamos em silêncio, e ele limpou a garganta — Você primeiro.

— Ah, não, só queria dizer, não quero que você… se ofenda, mas eu não gosto de caras mesmo. Nada pessoal.

— Sim, é algo que eu ia mencionar. Sabe, eu estou mais fazendo isso para agradá-la. 

Ficamos em silêncio de novo, e eu bebi um gole da taça dela, assistindo a ela voltar com uma taça vazia. Ela sorria, rodando o ar dentro dela como se estivesse cheia, e abrindo a Adega para me servir. 

— Cabernet, se não se importa. Mas dos bons.

— Você sabe que eu não entendo nada de vinho, então beberei o que você mandar.

Dando o copo para mim, ela sentou entre nós dois, dessa vez se inclinando dentro de meu espaço pessoal, brindando com o nariz praticamente colado no meu.

— Pelos quinze anos de nossa amizade. — Ela disse, sorrindo, e eu senti o amargor da frase.

— Quinze anos, uau. — Ele disse, e eu engoli metade da taça de uma vez. Nenhum dos dois disse nada.

E ficamos assim — papo furado, adiando o importante. Na primeira garrafa, tudo certo. Mas assim que ele foi para a adega buscar a segunda, ela jogou seu corpo contra mim, sussurrando em meu ouvido.

— Você quer parar aqui? — Ela se afastou; seus olhos sem maquiagem tinham uma inclinação como os olhos de uma raposa, e o rosa delicado dos lábios sem tinta fazia com que ela parecesse mais velha, como eu.

— Por que pararíamos? — Eu disse, oferecendo meu copo para o namorado dela encher.

— Por quê… — ela disse, passando as mãos pelas minhas costas, pelo meu braço e então pelas minhas pernas — eu não vou parar aqui se beber mais.

— Meninas, acho que chega. Não queremos causar problemas; somos adultos.

Nós nos olhamos, sorrindo, até que não conseguimos segurar o riso. Que tipo de problema seria possível?

— Amor, não esquenta, no estado em que estou, eu nunca faria nada que nunca quis — ela disse para o namorado, mas seus lábios estavam em minhas bochechas, seu corpo todo virado para mim.

Ele se sentou na poltrona oposta ao sofá, servindo-se de mais uma taça de vinho. Eu conseguia ver como as mãos dele tremiam. Tinha a sensação de que ele não estava gostando de nada disso, mas não sabia o que dizer para ela. 

Eu tinha que pensar rápido: eu ligava para proteger os sentimentos dele?

Senti o hálito de vinho tinto dela próximo aos meus lábios, ela cantarolando. Joguei a cabeça para trás, nos ombros dela, e me voltei para a direção dela, a pose perfeita para ela tomar a iniciativa de me beijar. Só precisava que ela desse o sinal.

Sua mão que estava na minha perna subiu, passando pela minha barriga e pulando direto para o pescoço, evitando meus seios num primeiro momento. Ela me segurou pela lateral de meu rosto, seu mindinho se movendo contra minha mandíbula, seus olhos navegando por todos os traços de meu rosto. 

Quando ela se inclinou, rapidamente a puxei para perto de meu corpo. Seus lábios eram macios, suaves, e ela inteira parecia uma pluma em meus braços. Ela facilmente abriu a boca para permitir que eu traçasse uma linha com a língua dentro dela, e ela suspirou no beijo quando coloquei minhas mãos com força na cintura dela.

Seus beijos eram lânguidos, preguiçosos. Ela tinha uma preguiça que estendia todos os movimentos no tempo, que fazia com que suas mãos repousassem nos meus ombros e ficassem lá, passivas, esperando alguma ação de minha parte. A única coisa que me indicava o prazer dela eram os suspiros que escapavam, a forma como as unhas dela apertavam minhas costas toda vez que traçava a pele pela barra do shorts, a forma como sua língua brincava com a minha. 

Puxei ela para o meu colo, e ela se derreteu em cima de mim, jogando todo o peso de seu corpo contra o meu. Minhas mãos entraram por baixo de seu short, sentindo a circunferência de sua bunda, a renda da calcinha. Apertei com força, ouvindo-a separar o beijo para suspirar de novo. Como incentivo para os barulhos, cravei as unhas na carne macia, e ela soltou um gemido manhoso que atravessou até o outro lado da sala, pois seu namorado limpou a garganta relativamente alto.

Ela se separou de mim, jogando a cabeça para trás e olhando pra ele — Amorrrr, eu não consegui me controlar.

— Não foi isso que combinamos, né? — Ele disse, e eu senti um frio na barriga.

Ela se virou pra mim com um biquinho, segurando meu rosto e arrastando o dedão pela maçã do meu rosto. 

— Você vai tirar isso de mim? — ela disse, se virando para ele, e eu podia ver o quão afetado ele estava por toda a situação, o rosto completamente vermelho.

— Não disse isso, é que…

— Os planos mudaram. — Ela disse, virando para mim — Hoje eu quero ela. E depois resolvemos.

Meus olhos ainda estavam no namorado dela, que olhava para nós duas com pesar nos olhos. Pensei, comigo mesma, que ele realmente a amava. 

Mas ao mesmo tempo, sinceramente, eu a amava há quinze anos. 

Seu hálito em meus lábios, meus olhos vagando entre ambos.

Quinze anos não parecem muito até você pensar que se tivéssemos tido um filho naquele dia, ele já estaria no ensino médio. Cultivamos quinze anos de idas e vindas, de pecados e acertos. 

A mão no meu ombro tensionando, quase escapando.

A única coisa que ocupava minha mente e que era indesejada, eu tentava me despistar.

Por que agora?

Ela olhava para mim com expectativa. Quanto mais eu demorava, mais hesitação aparecia no rosto dela. Foi mais por ela do que por mim, naquele momento. Deixei todos os pensamentos de lado e a beijei novamente.

Foi uma explosão muito mais forte que o primeiro beijo. Tinha uma tensão indescritível, uma força nauseante. Ela vinha com a sua língua em minha boca com mais agência, mais vontade. Sua mão começava a explorar meu corpo com um pouco mais de liberdade, mas ainda muito cautelosamente. Eu deixei sua boca de lado para descer beijos por seu rosto, por seu pescoço, por sua clavícula. Arrastei a língua pela pele, puxei o lóbulo de sua orelha e ouvi-a se desfazendo pelas minhas mãos.

Os olhos de seu namorado ficavam no meio do caminho da minha agência. Estava mais tímida de ir adiante, de tornar uns amassos algo sexual. Não tinha me decidido ainda se queria demonstrar para ele que ela queria a mim e não a ele, ao preço de deixar um homem destrinchar com o olhar todos os meus movimentos no sexo. 

Mas, de novo — era ela, e não qualquer mulher. 

Ela se esfregava contra meus quadris e meu torso, e o cropped de crochê escapava do lugar e fazia com que seus seios criassem fricção contra mim. Não era preciso muito para descer os beijos até alcançar a pele exposta, e ela mesma arrastou suas próprias mãos pelo corpo até levantar sua camiseta para mim, colocando seus peitos diretamente em meu rosto.

Tentava pensar nas mil conversas que tivemos na nossa vida — do que ela gostava? Me encarava com o problema de que nunca havia inquirido o que ela gostava, talvez por ciúmes de ouvir as histórias. Tentava navegar neste mar sem mapa através de seus sons e de seus movimentos, através de coisas incertas como a linguagem. Lambia e mordiscava seus mamilos, enquanto minhas mãos puxavam seu quadril para perto de mim agarradas ao seu traseiro. Um dos meus dedos passou pela barra do short, por onde começava a sua vulva, sentindo o calor pulsante dela. Puxei o shorts pela beirada, traçando com o dedo a sua calcinha, sentindo a excitação.

Ela se desfazia tão fácil em minhas mãos que decidi passar o indicador por cima de sua calcinha, apenas sentindo o contorno dos lábios e a posição do clitóris. Ela gemeu manhosa de novo, e eu mordisquei o mamilo dela enquanto pressionava o local do clitóris com o dedão, circulando lentamente.

“Vai ser aqui?” perguntei, levantando os olhos para ela. Ela tinha os lábios inchados e avermelhados de mil beijos, os olhos lacrimejantes de prazer. Sentia que podia levá-la para o quarto para ficarmos sozinhas e ela nem perceberia, mas precisava perguntar.

“Por favor, aqui”, ela disse, inclinando-se para meu ouvido. “Me toque como você se tocou pra minha foto.”

“Como você sabe?” perguntei, e meu erro foi a pergunta que me entregava completamente. Ela colocou uma das mãos em meu cabelo, puxando minha cabeça para trás e arrastando a língua pelo meu pescoço.

“Eu te conheço.”

Olhei para trás dela, onde o namorado olhava impassível para nós duas, sem sinal de prazer em seu rosto. O problema não eram duas mulheres, pensei. Era eu.

Foda-se, pensei.

Desabotoei seu short, baixando-o até o nível do ílio, deixando sua calcinha de renda bordô aparecer. Seus pelos pubianos escapavam por alguns dos trechos rendados, um caminho que levava até o seu umbigo. Segurei-a pela cintura e a empurrei, fazendo ela se equilibrar com as mãos em meus joelhos enquanto eu descia uma trilha de beijos pela sua barriga. Com a outra mão, lentamente adentrei por baixo de todo o tecido para alcançar seu calor.

Seu sexo estava quente, o licor descendo e umedecendo a carne. Queria ver, sentir, lamber, tocar, mas, como toda dinâmica sexual, era a pessoa mais submissa que controlava o ritmo do sexo. Ela rebolou em cima de minha mão, tentando arrancar algum tipo de fricção mais forte, mas eu segurava sua vulva do mesmo jeito que segurei a minha. Com os olhos marejados, ela tentava guiar a ponta dos dedos para a entrada, e eu trazia novamente para o clitóris, onde lentamente começava a mexer.

“Por favor…”, ela disse, e eu senti meu coração tremer.

“Não, você que me pediu, do jeito como eu me toquei.” Abri a mão, separando os lábios da vulva, explorando a extensão da abertura. Circulei a pele, sem adentrar fundo, apenas procurando seu ponto G. Ela se contorcia, os braços tremendo de se segurar apoiada para trás. Puxei-a e virei seu corpo, deitando-a no sofá.

Seu namorado tossiu, e eu ignorei.

Ela abriu as pernas para que eu coubesse ali dentro, no espaço, nossos corpos colados. Eu alternava entre estimular seu clitóris e a entrada da vagina, mas sem tentar ir fundo para não simular o sexo hétero. Queria dar uma experiência autenticamente lésbica para ela.

Seus quadris não paravam em um único lugar, tentando rebolar em minha mão. Seu torso alternava entre arquear as costas e respirar pesado. Dei uma mexida mais rápida no clitóris, com os dois dedos abrindo e fechando ao redor dele, apenas conseguia prestar atenção no som que saía de seus lábios e nas contrações musculares.

Eu estava respirando pesado, em cima dela, enquanto ela ainda sentia o quente do prazer, quando ela me beijou de novo — quente, preguiçoso como o primeiro beijo, totalmente satisfeita. Ela ficou lá enquanto eu tirava a mão de seu short, aproveitando a leseira, sem sinais de retornar nada.

Seu namorado levantou e vi que ele havia bebido mais da metade de outra garrafa de vinho entre as carícias entre mim e ela. Ela o chamou pra perto, e ele se aproximou. As mãos dela começaram a tatear sua calça, sua pelve, abrindo com violência o jeans dele.

— Chega, acabou, vamos dormir. — Ele disse, tentando desvencilhar as mãos dela. Ela abaixou suas calças largas, deparando-se com o pênis flácido do namorado.

— Você não gostou? — Ela disse, e ele revirou os olhos enquanto se ajeitava dentro da calça novamente.

— Desculpa, antes de você chegar, ela bebeu algumas taças de vinho a mais do que todos nós. Ela fica assim bêbada.

— Amor, não quero dormir. — Ela disse, me puxando para perto de novo — só mais um pouco.

— Eu acho melhor eu ir — eu disse, e ele assentiu comigo.

——

Eu acordei ao som de um celular tocando com dor de cabeça e com uma dor no coração pior que qualquer ressaca. Já era meio dia quando virei e atendi o celular.

— Amiga. — Ela disse, do outro lado da linha, e eu esfreguei o cenho.

— Sim, o que foi? — Eu disse, e ela suspirou.

— Nós terminamos. — Ela disse, e eu respirei.

— Por que?

— Ele… bom. Ele queria casar. Eu disse que tinha algo que eu queria fazer antes de casar. Mas parece que ele não soube lidar bem com a nossa relação.

— Entendi. — Me joguei na cama, sentindo o início de um sorriso.

— Diga algo! — ela disse, frustrada do outro lado da linha, e eu me ajeitei nos cobertores.

— Te amo, amor. Vou voltar a dormir.

Silêncio na linha.

— Alô?

— Também te amo. Sempre amei. — ela disse, desligando imediatamente.


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