ficção, erótica, literatura

i.

Sou atravessado pelas partículas sulfurosas da revelação; a química chega ao meu cérebro antes da imagem.

Tem as drogas que você respira, as que você come, as que você passa pelo corpo em gel no toque, e as que você ouve e vê. Esta figura que irradiou em um papel sensível é uma droga, de sais de prata e estabilizantes. Ela demora a tomar forma, um jogo de vai e vem sensual em que meu olhar desacelera seu processo químico. Mas seu objeto — ser objeto — me permite contemplar algo que, fora de mim, não é nada, mas, nela, é meu. Esta foto, este instante, este pedaço de papel são meus e só meus. Assim, tenho um pedaço dela e, como a foto foi tirada pela ação de minhas mãos, um pedaço de mim. Nós, juntos, unidos eternamente em uma ligação físico-química.

Meu corpo pulsa de vontade de rasgar em pedacinhos e engolir os materiais tóxicos da foto instantânea. Aproximo-me e cheiro, abro a boca e arrasto a ponta da minha língua pela superfície lisa e gélida. Quando encontro as bordas que encerram o meu campo de visão imagético, flexiono a língua para tomar toda a sua largura nos lábios. Minha, minha, minha.

ii.

Uma perspectiva improvável. Levanto meu rosto, apoiando o queixo na sua barriga, e te observo nessa posição em que sua vulnerabilidade e delicadeza ficam à mostra.

Duas veias, a jugular e a femoral, em fácil acesso.

Arrasto as mãos no suave interno da sua coxa, a textura de um pêssego que obstrói a realidade, que aquele lugar pulsa sangue e transpira suor. Subo meu rosto ao seu pescoço, plantando um beijo longo sobre a artéria que leva o sangue ao seu cérebro, uma mente ignorante do que eu penso.

Penso nesses detalhes humanos, nessa necessidade de apertar, rasgar, amassar, entranhar.

Mas por ora, me afasto com um sorriso, tateando o espaço em busca de algum aparelho que registre este momento. Não porque você está linda, mas porque preciso de algo para mim, que eu possa adorar, manter na gaveta, queimar – enfim, meu.

iii.

Guardo minha câmera envolta em pacotes de sílica. Ela no armário é a pior sensação do mundo, um órgão extraído de mim. Sou incapaz de enxergar sem ela.

Mas a umidade faz mal; todos avisam. Precisa se proteger da umidade.

Estou completamente devastado no meu quarto, por nenhum motivo além de que eu, também estou contaminado por uma umidade que afeta meu funcionamento. As lágrimas trancadas ainda na garganta me inundam e me destituem de imagens.

Pego a caixa de entrega onde chegou um pacote de saches de silica e jogo por cima de todo colchão. A falta de um cheiro marcante que me conforte com sua presença é aterrorizante. Me deito, rolando pelas pedrinhas de sílica em gel, antes que as imagens que guardo se tornem corrompidas.

iv.

A dor de cabeça deixa minha visão turva, luzes caleidoscópicas as quais vagam perdidas em busca de você.

Você, do outro lado da sala.

Sinto que não tem coragem de olhar na minha direção, com a face abaixada, mas sua expressão corporal se dirige a mim.

Eu não preciso ser visto por você, se você me permitir assistir aos seus passos.

Uma pulsão atrás dos olhos, no ritmo do meu coração. Que ecoa aos seus passos, leves e cada vez mais longe.

Precisamos nos dar adeus? Parece que todas as convenções sociais se desfazem à sua presença.

Deixo você ir para nunca mais te ver.

Anos depois, minha galeria de fotos irá me oferecer seu rosto sob o título de “memórias”. Irei sorrir e lembrar do quão tolos nós fomos.

Mas agora, estou no momento em que você foi. E nossa realidade sempre será o olhar desencontrado do que poderia ser, nunca o sorriso para a câmera.

v.

Abro o meu cemitério de imagens.

A foto de inicialização do Lightroom sempre me causou estranhamento, como se fosse destituída de toda arte para virar código de programação. Essa programação a priori da edição, que limita meu potencial criativo, que cria as limitações e as virtualidades do possível.

Quando inicia, jogo os raws do meu microSD na pasta.

Mato a autenticidade da imagem e a manipulo a meu bel-prazer. Se um dia essa foto foi um retrato seu, agora é um retrato meu. Pois nas curvas, nos presets, nos cortes, eu reduzo sua pessoa à minha composição.

Eu preservo minhas fantasias sobre você em uma granulação artificial, que simula uma foto espontânea. Espontâneo é um rótulo impossível para a quantidade de alterações feitas em você.

E, no entanto, te desejo assim do jeito que te desejo em pessoa, em carne e osso. Vivo essa traição com sua eu que eu mesmo criei, que me deleita em arquivos e vídeo. O poliamor moderno entre quem eu não conheço, quem eu acho que sou e quem, na realidade, sou eu.

vi.

Tecnicolor.

Feixes, prismas, raios, frestas, escapes de luz.

Abro minha câmera sem rodar o filme e deixo o sol contaminar todos os frames. Em instantes, sua figura não será mais presença no meu negativo, apenas uma assombração química na composição.

Sem registro.

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